Brasília, 28 de setembro de 2026.
A engenharia está mudando e a formação dos profissionais também precisa acompanhar esse movimento. Em um mercado impulsionado pela transformação digital, interdisciplinaridade e necessidade de soluções cada vez mais complexas, dominar conteúdos técnicos continua sendo fundamental, mas já não é suficiente. Criatividade, pensamento crítico e capacidade de trabalhar de forma colaborativa estão cada vez mais entre as habilidades esperadas dos novos engenheiros.
A avaliação é da presidente da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), Adriana Tonini. “As Diretrizes Curriculares Nacionais de Engenharia, definidas pela Resolução CNE/CES nº 2/2019, já estabelecem que o egresso deve ser crítico, criativo, ético e capaz de inovar, além de possuir visão holística e multidisciplinar. No entanto, na prática, os currículos continuam muito centrados em conteúdos técnicos e pouco voltados para o desenvolvimento de competências transversais, como liderança, comunicação, pensamento crítico e capacidade de adaptação”, comenta a professora titular da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
As próprias Diretrizes Curriculares Nacionais apontam, portanto, para uma formação que ultrapassa a transmissão de conhecimentos. E o desafio está em transformar esses princípios em experiências capazes de preparar o estudante para situações que encontrará no exercício profissional. Para Tonini, o perfil demandado atualmente envolve profissionais preparados para “aprender continuamente, interpretar dados complexos, dialogar com equipes multidisciplinares e assumir protagonismo em projetos”.

Quando o currículo ultrapassa a sala de aula
Uma experiência da Escola Politécnica, a escola de engenharia da Universidade de São Paulo (Poli-USP), mostra como atividades que complementam a formação acadêmica podem contribuir para o desenvolvimento dessas habilidades ao longo da graduação. Desde 2025, são 721 Atividades Acadêmicas Complementares (AAC) e 97 ofertas de Atividades de Extensão Universitária (AEX). A escola também mantém dez organizações estudantis não associadas à grade acadêmica, entre elas o Grêmio Politécnico, a Associação Atlética da Politécnica e oito Centros Acadêmicos.
De acordo com a instituição, essas iniciativas permitem que o universitário desenvolva competências que dificilmente seriam adquiridas apenas por meio das aulas convencionais. Projetos de extensão, organizações estudantis e equipes esportivas colocam os futuros engenheiros diante de situações que exigem organização, gestão de pessoas, tomada de decisão e trabalho coletivo.
Foi o que percebeu o estudante de engenharia elétrica Danilo Hako, que atuou como um dos capitães do grupo de robótica Thunderatz e diretor de modalidade de uma equipe de beisebol. “Para atingir um objetivo, você precisa saber como organizar o time, através do manejamento de dinheiro, gestão de pessoas e garantir que jogaremos os campeonatos”, avalia o universitário que inicialmente achava que ser líder era uma atividade distante da engenharia. Mas logo ele entendeu que as habilidades comportamentais e sociais – ou soft skills, como são conhecidas – têm relação direta com a vida profissional.
A experiência também se estende para além dos limites da universidade. Nas atividades de extensão, os estudantes são colocados em contato com diferentes realidades sociais e precisam aplicar conhecimentos técnicos para compreender problemas concretos e propor soluções. Na AEX Bandeira Científica, por exemplo, alunos de engenharia ambiental participam de expedições que contribuem para melhoria do saneamento básico de comunidades.
Segundo o professor André Marguti, do Departamento de Engenharia Ambiental e um dos supervisores da atividade, a iniciativa amplia a percepção dos futuros profissionais sobre o impacto de seus projetos. “Os alunos conseguem ter uma visão muito legal de trabalho de campo, ver para quem eles têm que fazer projetos, viver uma realidade totalmente diferente das que eles vivem na cidade de São Paulo, sem recursos”, afirma o docente que pesquisa soluções de engenharia para adaptação e mitigação das mudanças climáticas.

Competências para um mercado em transformação
Experiências como as da Poli-USP ajudam a materializar um desafio apontado pela Associação Brasileira de Educação em Engenharia: aproximar o conhecimento acadêmico das situações encontradas no mundo profissional e na sociedade. A participação em organizações estudantis, por exemplo, pode colocar o aluno em contato com gestão financeira, planejamento, comunicação institucional, negociação e liderança. Já os projetos interdisciplinares e de extensão aproximam diferentes áreas do conhecimento e apresentam problemas que não cabem nos limites de uma única disciplina.
Para Adriana Tonini, esse movimento precisa ser ampliado e estruturado nas instituições de ensino do Brasil. “É necessário fortalecer parcerias com a indústria, valorizar competências humanas e estratégicas e criar mecanismos de avaliação que contemplem não apenas o domínio técnico, mas também habilidades de liderança, comunicação e inovação”, afirma a presidente da Abenge.
Na Poli-USP, a experiência dos universitários reforça essa perspectiva. Para o aluno de engenharia ambiental Gabriel Hanashiro, a diversidade de atividades é o diferencial na graduação. “O extracurricular da Poli aplicado na engenharia é muito essencial, e me ajudou muito a ter essa visão social como engenheiro”, enfatiza Hanashiro.
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Julianna Curado
Equipe de Comunicação do Confea, com informações da Assessoria de Comunicação da Poli-USP
